Ainda a classificação das palavras
Pode-se afirmar, sem ser tachado de exagero, que, desde a época do Estagirita até à do inglês John Lyons, a classificação das palavras tem sido objeto de estudos e análises por parte de filósofos, de filólogos e de linguistas renomados, o que levou os últimos a criar critérios de classificação.
A criação de tais mecanismos linguísticos se deve, sobretudo, ao fato de esses estudos oferecerem algumas dificuldades aos incipientes, aos insipientes e, de certa forma, até aos mais versados, quando feitos sem critérios.
Sem nos determos em minúcias, com o escopo de não sermos prolixos, cabe-nos afirmar que, na classificação de palavras da língua portuguesa, devemos ter por base a forma, a função e o sentido ou todos esses componentes juntos.
Cônscios disso, tecemos uma reflexão sobre certas palavras.
Na frase “Os homens justos serão salvos”, justos funciona como adjetivo, pois está qualificando o substantivo “homens”. Porém, na frase “Os justos serão salvos”, a ausência do substantivo faz que o adjetivo se substantive.
Na oração “Votamos contra o ex-prefeito”, “contra” funciona como uma preposição, contudo em “Votamos contra”, a palavra contra é classificada como advérbio, uma vez que modifica o verbo, ocorrendo uma adverbialização.
No período “Comprei um caderno”, o “um” funciona como artigo, mas em “Comprei só um caderno”, o “um” passa a ser um numeral, devido à presença do “só”, com o sentido de “somente”.
Observe-se: se alguém escreve estas frases: “Comprei um caderno e duas revistas” e “Em casa, um estudava; o outro brincava”, na primeira frase, a palavra “um” funciona como numeral, em decorrência do paralelismo com o numeral “duas”; na segunda, a palavra “um”, devido ao paralelismo com “o outro”, é classificada como pronome.
A palavra “hoje” normalmente pertence à classe dos advérbios, como em “Hoje iremos ao parque”, entretanto, nesta outra “A mulher de hoje é mais atuante”, “hoje substantivou-se devido à preposição de. É bom lembrar que preposição também pode substantivar, e não somente o artigo.
Atente-se para a seguinte frase: “Conheço aquela casa perto da fazenda”. Na construção anterior, a palavra aquela é classificada como pronome demonstrativo. No entanto, se algum concurseiro afirmar “Se eu passar, vou fazer aquela (=uma boa) feijoada!”, a palavra em questão terá valor qualificativo, perdendo a noção de lugar.
Um dos casos mais dignos de nota é o relativo à palavra agora. Observe estas construções:
- O convidado chegou agora.
- Agora estou escrevendo a frase “b”.
- Agora vou estudar para a prova.
- Quero viajar, agora estou sem dinheiro.
- Você agiu errado, agora aguente as consequências.
Não é preciso contextualização para se perceber que, nas três primeiras construções, o agora funciona como advérbio, conquanto apresente uma leve mudança de sentido. Nas duas últimas, nota-se o valor de conjunção coordenativa, respectivamente, adversativa e conclusiva. Contudo, diverso de todos os anteriores é o “agora” deste pequeno trecho do conhecido poema drummoniano : “E agora, José?”
Cumpre ressaltar que nem sempre o artigo substantiva, como se nota neste período: “Cumprimentei o mestre, e o meu colega fez o mesmo”. Como se observa, a palavra mesmo não está substantivada, visto que tem o sentido de a mesma coisa (=pronome demonstrativo neutro). Convém lembrar que não é bom português escrever “Ele visitou o amigo. O mesmo estava doente”, como se vê frequentemente. Nesse caso, deve-se usar que, o qual, este.
Talvez um dos casos mais estrambóticos seja o da palavra “então”, como ocorre no exemplo seguinte: “- Penso, então existo”, disse o então precursor do Cartesianismo. É patente que, na construção anterior, ambas as palavras não têm o mesmo sentido, muito menos a mesma classificação.
Das ponderações feitas até aqui, pode-se chegar à conclusão de que a classificação das palavras vai além do conhecimento de alguns critérios, exigindo do estudioso observação acurada e percepção linguística.
Classifique as palavras em destaque nas frases seguintes com a utilização dos números propostos:
- Substantivo
- Adjetivo
- Artigo
- Numeral
- Pronome
- Verbo
- Advérbio
- Preposição
- Conjunção
- Interjeição
- ( ) “Contente o padre examina o povo.” (Olavo Bilac)
- ( ) “A Europa é sempre Europa, a gloriosa!…” (Castro Alves)
- ( ) “Mas que tens ? Não me conheces?” (Gonçalves Dias)
- ( ) “Minha mãe foi o que sou” (Augusto Gil)
- ( ) Malgrado o tempo nublado, a família foi à praia.
- ( ) Visto estar com dores, o atleta não jogou.
- ( ) “A filha crescia-lhes, que metia medo.” (Aluísio de Azevedo)
- ( ) “Cristo ! embalde morreste sobre um monte…” (Castro Alves)
- ( ) “Tinha passado o dia a atordoar-me…” (José de Alencar)
- ( ) “Os leitores estão curiosos por saber quem é ela.” (Manuel Antônio de Almeida)
Gabarito
- 2
- 1
- 5
- 5,5
- 8
- 8
- 9
- 7
- 8
- 6