Segundo o site Taberna da História, foi um dos mais ilustres filólogos brasileiros, autor do “Dicionário Brasileiro” encomendado pela Academia Brasileira de Letras e revisor da Constituição Federal de 1946. Ele nasceu em Vitória da Conquista no dia 7 de junho de 1889 na Rua das Flores, hoje Góes Calmon, e ainda criança foi levado para Jequié. Sá Nunes concluiu os estudou em Salvador, tornando-se advogado. Chegou a ser promotor público e juiz de direito, funções que alcançou via concurso público. Ele também foi professor: em 1939, passaria à condição de titular da cadeira de filologia portuguesa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP). Sá Nunes chegou a ser considerado também um dos três maiores juristas do Brasil, ao lado de Ruy Barbosa e Carneiro Ribeiro.
Autor de Língua Vernácula: Gramática e Antologia publicada, originalmente, na década de 1930 (com edições marcantes pela Editora Globo). Esta foi uma de suas obras mais difundidas. Era dividida em séries voltadas para o ensino ginasial e secundário, hoje ensino fundamental 2 e ensino médio, respectivamente, combinando regras gramaticais estruturadas com a análise de textos de grandes autores da língua portuguesa.
Aprendei a Língua Nacional. Lançada em múltiplos volumes (pela Editora Saraiva). A obra tinha um forte caráter didático e buscava guiar estudantes e educadores na correta expressão do idioma falado e escrito no Brasil.
Na Filologia e Normatização, publicou Ortografia Nacional por volta de 1940. Este livro trazia profundas reflexões e propostas linguísticas em uma época de intensos debates e reformas sobre a unificação e normatização da escrita no país. O Eco, lançado em 1951, é um volume que reúne ensaios, críticas e estudos específicos sobre a língua portuguesa, filologia e literatura.
Nos Projetos Institucionais e Parcerias, contribuiu com o Dicionário Brasileiro da Academia Brasileira de Letras. Embora seja uma obra coletiva, José de Sá Nunes teve papel de destaque em sua elaboração, tendo sido formalmente incumbido de trabalhar na estrutura desse dicionário acadêmico.
Sua produção também se estendeu ao campo do direito constitucional; sua maestria vernacular fez com que ele fosse o responsável pela revisão filológica final do texto da Constituição Federal de 1946.
A Biblioteca Pública Municipal, localizada em Vitória da Conquista (BA), Av. Jonas Hortelio, s/n – Recreio – BA (Região do Conquistinha) é um dos principais patrimônios culturais do sudoeste baiano e tem o nome de José de Sá Nunes. Fundada originalmente como uma sala de leitura em 1952 e oficializada como biblioteca em 1958, ela recebeu o nome do ilustre filólogo conquistense como forma de homenagem. Conta com o segundo Maior Acervo Municipal da Bahia.
A instituição abriga mais de 35 mil livros, ficando atrás apenas da capital do estado nesse tipo de categoria. O espaço conta com rampa de acesso, banheiros adaptados, vagas de estacionamento acessíveis e um acervo especial com livros em braile em parceria com associações de apoio a pessoas com deficiência visual.
Possui uma sala exclusiva dedicada à conservação de obras raras e registros históricos. Muito além dos estudos, o local tem cerca de 750m² e funciona como centro cultural, recebendo projetos de contação de histórias para escolas (“Biblioteca Viva”), rodas de conversa e lançamentos de livros. Funciona de Segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 18h.
A atuação acadêmica de José de Sá Nunes atingiu o seu ápice entre o final da década de 1930 e os anos 1940, período em que ele se consolidou como uma das maiores autoridades em filologia portuguesa e linguística normativa do Brasil.
O marco mais importante de sua carreira docente ocorreu em 1939, na então jovem Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da Universidade de São Paulo (USP).
José de Sá Nunes conquistou a prestigiada cátedra de Filologia Portuguesa por meio de um rigoroso concurso público de títulos e provas.
Para o certame, ele defendeu a tese intitulada Contribuição para a História da Filologia Portuguesa no Brasil, uma pesquisa profunda que mapeou a evolução dos estudos da língua no país desde o período colonial.
Sua contratação ajudou a estruturar o recém-criado subdepartamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP, elevando o nível científico dos estudos gramaticais na instituição.
A Linha de Pensamento e Método Pedagógico de Sá Nunes era conhecido por um perfil que equilibrava a erudição clássica com o rigor normativo:
Defesa do Vernáculo: Ele combatia duramente os estrangeirismos excessivos e defendia a pureza do idioma, mas sempre fundamentava suas correções no uso histórico e na evolução fonética e morfológica das palavras.
Formação de Professores: Na USP, ele não formava apenas pesquisadores, mas principalmente os futuros professores de português do ensino secundário de São Paulo. Seu método unia a história da língua (filologia) à aplicação prática em sala de aula (didática).
Diálogo com Intelectuais: Sua cátedra o colocou no centro dos debates linguísticos da época, interagindo diretamente com outros gigantes da língua portuguesa no Brasil, como Antenor Nascentes, Said Ali e Sousa da Silveira.
Legado Acadêmico: Embora tenha retornado posteriormente às funções jurídicas e ao Rio de Janeiro, então capital federal, para colaborar com órgãos governamentais, sua passagem pela USP deixou a marca do rigor científico na análise da língua nacional. Seus manuais didáticos, adotados por décadas nas escolas brasileiras, foram o reflexo direto de suas pesquisas e aulas na universidade.
A tese de cátedra defendida por José de Sá Nunes em 1939 na Universidade de São Paulo (USP) tem como título oficial: “Contribuição para a História da Filologia Portuguesa no Brasil”.
A aprovação desse trabalho garantiu a ele o cargo definitivo de professor catedrático, o cargo máximo da hierarquia universitária na época, na recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL).
O Objetivo e o Conteúdo da Tese: Em uma época em que os estudos linguísticos no Brasil ainda tentavam se firmar como ciência independente — desvinculando-se um pouco do mero “decorar regras” ou da tradição puramente jurídica —, a tese de Sá Nunes propôs algo pioneiro:
- Mapeamento Histórico: Ele realizou um resgate crítico de tudo o que havia sido pensado e escrito sobre a língua portuguesa no Brasil desde os tempos coloniais.
- Avaliação de Intelectuais: Analisou as metodologias e os ensaios gramaticais de grandes nomes que o antecederam, organizando cronologicamente os avanços de gramáticos, lexicógrafos e pesquisadores brasileiros.
- Afirmação Científica: O trabalho funcionou como um manifesto, defendendo que a filologia não era apenas uma técnica de ler manuscritos antigos, mas uma ciência indispensável para se compreender a identidade da nação e a evolução do português falado e escrito no Brasil.
Na trajetória de José de Sá Nunes, o Direito e a Filologia não foram caminhos separados, mas sim carreiras paralelas que se alimentavam mutuamente. O rigor da magistratura refinava sua escrita, enquanto sua erudição linguística elevava o nível técnico de sua atuação jurídica.
A conexão entre essas duas áreas em sua vida manifestou-se em frentes bem definidas:
- A Formação Humanística e o Domínio do Latim. No início do século XX, as Faculdades de Direito, como a de Salvador, onde ele se formou, eram os grandes centros de formação de intelectuais, escritores e filólogos no Brasil.
O Elo do Latim: O Direito exigia o domínio absoluto de aforismos, brocardos e construções jurídicas em latim. Ao se aprofundar na língua de Roma para a prática jurídica, Sá Nunes encontrou a chave de entrada para a filologia românica (o estudo da evolução do latim para o português).
- O Rigor Técnico da Magistratura Aplicado à Língua: Sá Nunes ingressou na carreira jurídica por meio de concurso público, atuando como promotor público e juiz de direito.
A Hermenêutica Jurídica: No Direito, a correta interpretação das palavras de uma lei, hermenêutica, pode mudar o destino de um julgamento. Ele transferiu esse “rigor forense” e o apego às regras estruturais para as suas obras gramaticais e para as salas de aula. Ele analisava a estrutura da língua com a mesma precisão com que um juiz analisa as minúcias de um processo.
- O Ápice da Intersecção: A Revisão da Constituição de 1946. O momento em que o jurista e o filólogo se tornaram um só.
A Missão: Após a queda da Era Vargas, o Brasil precisava de uma nova Carta Magna que simbolizasse a redemocratização. O senador Nereu Ramos confiou a José de Sá Nunes o papel de revisor filológico e gramatical definitivo do texto da Constituição Federal de 1946.
A Importância: Não se tratava apenas de corrigir erros de digitação. Como jurista, ele compreendia o alcance legal das palavras; como filólogo, garantia que o texto tivesse clareza jurídica, elegância vernacular e que evitasse ambiguidade nas leis mais importantes do país. Em suma, a simbiose entre as duas profissões conferiu a José de Sá Nunes uma autoridade única: ele era um gramático respeitado no tribunal e um juiz soberano nas maiores polêmicas da língua portuguesa.
Embora tenha nascido e se formado em Direito na Bahia, ele construiu uma sólida reputação no funcionalismo público do sul do país na década de 1920, exercendo papéis cruciais de acusação, promotoria, e julgamento, magistratura.
As principais atuações desse período envolvem:
- Magistratura no Paraná, Comarca de Castro. Por volta de 1920, aos 27 anos de idade, Sá Nunes ingressou na magistratura paranaense por meio de concurso público.
O Cargo: Atuou como Juiz de Direito Substituto na histórica Comarca de Castro.
O Impacto: Essa fase foi essencial para consolidar seu perfil de julgador e sua visão analítica. Na época, os juízes substitutos atendiam a vastas regiões geográficas, lidando com conflitos agrários, crimes e a aplicação do Código Civil de 1916, que era recente.
- Ministério Público na Comarca de União da Vitória. Após sua experiência como juiz substituto e um período militando na advocacia privada, Sá Nunes assumiu um cargo de destaque no Ministério Público.
O Cargo: Atuou como Promotor Público na Comarca de União da Vitória, cidade paranaense localizada na divisa com Santa Catarina.
Remoções e Movimentações: Documentos oficiais do governo do Paraná indicam que ele também transitou por outras jurisdições locais, chegando a ser removido temporariamente da comarca de União da Vitória para a de Antonina, no litoral paranaense, e vice-versa.
O Berço de sua Transição Acadêmica: Foi justamente durante o exercício da Promotoria Pública em União da Vitória que o jurista começou a dar maior vazão aos seus profundos estudos filológicos.
A rigidez e a rotina dos processos jurídicos abriram espaço para o seu real chamado vocacional: o ensino da língua. A partir de sua bagagem na comarca, ele prestou um memorável concurso para a cátedra de Português no antigo Ginásio Paranaense em 1921 e, pouco depois, na Escola Normal Secundária de Curitiba.
Essa dupla jornada, Direito e Magistério, no Paraná funcionou como o verdadeiro trampolim intelectual que, anos mais tarde, o credenciaria a abandonar as cortes do interior para assumir o posto de professor catedrático na USP.
Os anos 1920 no Paraná foram o período de incubação e consolidação de José de Sá Nunes como um intelectual de peso nacional. Foi nessa década, vivendo entre Curitiba e o interior do estado, que ele fez a transição definitiva de operador do Direito para um cientista da linguagem.
Sua movimentação na cena cultural e educacional paranaense ocorreu em três frentes principais:
- A Consagração no Magistério Superior e Secundário. Embora atuasse no Judiciário, Sá Nunes buscou rapidamente a inserção nos principais centros educacionais de Curitiba por meio de concursos públicos rigorosos:
O Ginásio Paranaense (1921): Conquistou por concurso a cadeira de Português no Gymnasio Paranaense, a instituição secundária mais prestigiosa do estado, que moldava a elite intelectual local.
A Escola Normal de Curitiba: Também lecionou na formação de novos professores na Escola Normal Secundária. Suas aulas eram famosas pelo rigor filológico que ia muito além da gramática decorada.
A Faculdade de Direito do Paraná: Sá Nunes chegou a lecionar no ensino superior na capital paranaense, onde sua bagagem como juiz e promotor se unia perfeitamente à docência.
- A “Guerra Filológica” contra Vasco Taborda. O Paraná dos anos 1920 era um celeiro de grandes debates linguísticos, e Sá Nunes esteve no centro da maior polêmica da época. Ele travou um célebre duelo intelectual, por meio da imprensa, com o professor e filólogo paranaense Vasco Taborda.
O Debate: As discussões giravam em torno de regência, sintaxe e correção vernacular. Ambos publicavam artigos extensos nos jornais locais contestando as teses um do outro.
O Legado da Disputa: Essa disputa acabou gerando o livro O Eco, cujos estudos começaram ali e foram publicados formalmente mais tarde, onde Sá Nunes compilou suas defesas e análises contra as críticas que recebia. Esse embate projetou o nome dele para além das fronteiras do Paraná, chamando a atenção de intelectuais do Rio de Janeiro e de São Paulo.
- Participação na Imprensa e Revistas Culturais: Curitiba vivia uma efervescência cultural na década de 20, período que coincidia com o movimento do Simbolismo tardio e o início do Regionalismo / Paranismo.
Sá Nunes era colaborador frequente de jornais de grande circulação da capital, escrevendo crônicas e artigos de crítica literária. Ele usava o espaço da imprensa não apenas para discutir filologia pura, mas para analisar obras de autores nacionais sob a ótica da evolução da língua falada no Brasil.
Em suma, o Paraná dos anos 1920 forneceu a Sá Nunes o ambiente de debate, o palco de imprensa e a estabilidade acadêmica necessários para que ele ganhasse a musculatura intelectual que, na década seguinte, o levaria ao topo da Academia na USP.
A célebre “guerra filológica” travada nos jornais de Curitiba durante a década de 1920 colocou em lados opostos José de Sá Nunes e o intelectual paranaense Vasco Taborda, Vasco Lourenço Taborda Ribas, que anos mais tarde presidiria a Academia Paranaense de Letras.
Essa polêmica representava o espírito da época: debates acalorados sobre a pureza do idioma, onde a gramática era tratada com a paixão de uma disputa política.
O Contexto da Disputa
Sá Nunes havia chegado ao Paraná e rapidamente conquistado espaço como promotor e professor do prestigioso Ginásio Paranaense. Ao mesmo tempo, Vasco Taborda era uma figura local estabelecida, também voltada aos estudos filológicos e à defesa da identidade cultural paranaense. O choque de vaidades e visões metodológicas foi inevitável, e o palco escolhido foram as páginas da imprensa escrita de Curitiba, onde ambos publicavam artigos semanais contestando-se mutuamente.
Os Argumentos Centrais da Polêmica
Normativismo Estrito verso Evolução da Língua: Vasco Taborda adotava uma postura de forte defesa de certas tradições da sintaxe clássica e dos usos consagrados em Portugal. Já Sá Nunes, embora fosse um purista e defensor do vernáculo, apoiava-se fortemente na filologia científica e na fonética histórica. Para Sá Nunes, uma regra gramatical não era correta apenas “porque sim” ou porque um autor antigo a usou, mas sim se fizesse sentido dentro das leis de evolução da língua latina para a portuguesa.
Sintaxe e Regência verbal: O grande foco dos textos atacava minúcias da construção frasal. Eles debatiam exaustivamente a colocação pronominal, próclise, ênclise e mesóclise, a regência de determinados verbos e o uso correto de preposições. Taborda apontava supostos deslizes na escrita de Sá Nunes ou dos autores que ele defendia, enquanto Sá Nunes respondia desconstruindo os argumentos do rival com citações em latim e demonstrações de evolução morfológica.
A Autoridade da Crítica: Taborda questionava o tom professoral e a autoridade com que o recém-chegado Sá Nunes corrigia o meio intelectual local. Sá Nunes respondia elevando o tom técnico: acusava as críticas de Taborda de serem baseadas em um “empirismo gramatical” raso, desprovido do verdadeiro método filológico.
O Desfecho e o Legado: O Livro O Eco
Sá Nunes reuniu toda a sua defesa, as réplicas e os estudos linguísticos gerados no calor desse embate e os compilou. Essa produção paranaense foi a base para a publicação de sua famosa obra O Eco.
Curiosamente, a rivalidade deixou marcas profundas na história da Academia Paranaense de Letras. Quando a instituição foi organizada, Sá Nunes foi indicado para uma das cadeiras, mas recusou-se a assumir, alegando publicamente superstição com o número da cadeira, o 13. Nos bastidores, a recusa também refletia o desconforto com o espaço que Vasco Taborda possuía na mesma instituição, selando o afastamento definitivo de Sá Nunes da cena literária paranaense antes de sua ida para a USP.
A efervescência cultural e os debates gramaticais na imprensa brasileira dos anos 1920 e 1930 não envolviam apenas José de Sá Nunes e Vasco Taborda. Naquela época, o idioma era visto como um símbolo de identidade nacional e soberania, o que atraía os maiores intelectuais do país para verdadeiros “duelos” de erudição.
Os principais filólogos e gramáticos contemporâneos a Sá Nunes, que participavam ou influenciavam diretamente esses debates, dividiam-se entre os defensores da tradição clássica e os modernizadores da língua:
- Antenor Nascentes (1886–1972). Considerado um dos pais da filologia científica no Brasil, Antenor Nascentes foi o grande responsável por aplicar a metodologia da geografia linguística e da etimologia moderna ao português brasileiro.
Perfil nos debates: Enquanto Sá Nunes debatia a norma padrão e a sintaxe forense, Nascentes focava na origem das palavras e na fala das diferentes regiões do país. Seu magistral Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa servia como a palavra final para resolver disputas sobre a origem e a evolução histórica dos termos que geravam polêmica na imprensa.
- Manuel Said Ali Ida (1861–1953). Said Ali foi um dos maiores teóricos da sintaxe e da gramática histórica do Brasil. Suas obras revolucionaram o ensino ao demonstrar que a língua não era estática.
Perfil nos debates: Ele era uma referência constante nas defesas de José de Sá Nunes. Quando Sá Nunes precisava justificar por que certas estruturas sintáticas brasileiras eram legítimas, mesmo que condenadas por puristas locais, ele recorria às lições históricas de Said Ali para provar que a língua evoluía naturalmente a partir do latim vulgar.
- Sousa da Silveira (1883–1967). Álvaro Ferdinando de Sousa da Silveira foi um professor e filólogo de imenso prestígio, conhecido pelo rigor absoluto na análise de textos literários clássicos como os de Camões.
Perfil nos debates: Sousa da Silveira representava o ápice do método filológico de “limpeza” e restauração de textos antigos. Nos debates da época sobre o que era o “bem escrever”, a autoridade de Silveira era invocada por todos os lados para validar se um autor moderno estava ou não cometendo desvios em relação aos clássicos do idioma.
- Cândido de Figueiredo (1846–1925). Embora fosse um filólogo e lexicógrafo português, a influência de Cândido de Figueiredo nos debates intelectuais no Brasil dos anos 1920 era gigantesca. Ele era o autor de dicionários e de livros de “correção de erros” extremamente populares.
Perfil nos debates: Figueiredo representava a ala do ultrapurismo e do combate feroz aos galicismos, termos franceses, e brasileirismos. Gramáticos mais tradicionais no Brasil usavam as lições dele para atacar as inovações da fala brasileira, enquanto a ala de Sá Nunes rebatia esse purismo excessivo exigindo critérios mais científicos e históricos em vez do mero preconceito linguístico.
- Carneiro Ribeiro (1839–1920) e Rui Barbosa (1849–1923). Embora pertençam à geração imediatamente anterior, a grande polêmica que eles travaram sobre a redação do Código Civil de 1916 ainda ecoava fortemente nos anos 1920. Carneiro Ribeiro, professor de Sá Nunes na Bahia, e Rui Barbosa discutiram publicamente, vírgula por vírgula, a correção gramatical das leis do país.
Perfil nos debates: Essa disputa serviu de molde para o estilo de debate que Sá Nunes adotou no Paraná contra Vasco Taborda: o uso das páginas dos jornais para dissecar a sintaxe de textos oficiais e literários com paixão e erudição jurídica.
HOMERO BATISTA DE BARROS sobre José de Sá Nunes.
Perdeu o Brasil, com a morte de José de Sá Nunes, o maior dos seus filólogos contemporâneos. Ligado ao Paraná desde 1920, quando ingressou na magistratura como Juiz de Direito Substituto da comarca de Castro, militando posteriormente na advocacia e passando a exercer a Promotoria Pública de União da Vitória, foi aqui que começou o eminente baiano a dar largas aos seus estudos filológicos que lhe abriram as portas do magistério especializado, em memorável concurso para a cátedra de Português, do antigo Ginásio Paranaense, em 1921.
Dois anos decorridos e ei-lo catedrático também da Escola Normal Secundária de Curitiba, hoje Instituto de Educação, do qual veio a ser diretor. Quer como professor, quer na função administrativa de alta responsabilidade, a sua linha de conduta se fez de excepcional brilhantismo e de admirável retidão pela absoluta fidelidade aos princípios que o nortearam na vida. Daí as adversidades que teve de arrostar com grande reserva de energias morais, através duma batalha insana em prol da moralidade no ensino, da formação espiritual da mocidade e da defesa da correção da linguagem, cônscio de que, face aos seus deveres para com Deus e para com a Pátria, ensinar aos que não sabem, propugnando simultaneamente a pureza do idioma, é obra de religião e de patriotismo, mormente num meio onde campeava o indiferentismo religioso sob a nefasta influência de remanescentes do liberalismo que proclamavam a ignorância religiosa da escola leiga como um dos postulados mais sedutores da democracia liberal.
A serviço dessas diretrizes, foi José de Sá Nunes um polemista de primeira ordem, distinguindo-se, por outro lado, como conferencista católico e seguro doutrinador. Das suas conferências sobre tema religioso fizeram-se notáveis as realizadas na União Católica Brasileira, do Rio, intitulada Um fruto social da educação anticatólica, pronunciada em 1919; a Conferência no Colégio do Bom Jesus, sob o patrocínio do Grêmio Literário de S. Luís, em 1928; Os Conversos, proferida em 1930, no Círculo de Estudos Bandeirantes; a série de palestras realizadas na Casa das Associações Católicas e no Colégio do Bom Jesus, de Curitiba, além das suas orações cívicas como a Saudação à Pátria Brasileira, no jubileu da sua independência política em 1922, a Saudação a Alberto de Oliveira, a Língua Portuguesa e a Unidade Nacional, na Reitoria da Universidade de Porto Alegre, em 1938.
A sua bibliografia filológica compreende dezenas de trabalhos dos mais excelentes, dentre os quais se distinguem o Sinclitismo Pronominal no Idioma Luso-Brasileiro; a Tese à cadeira de filologia portuguesa da Universidade de S. Paulo; as cinquenta publicações na Excelsior; o Consultório de advocacia gramatical, desde o n° 1, de janeiro de 1925, até o n° 15, de julho de 1928, ininterruptamente na revista Brasiliana, do Rio; a colaboração efetiva na Revista de Língua Portuguesa do Rio; os comentários à Réplica, de Rui Barbosa; as Consultas gramaticais e filológicas, nº 57 e seguintes; a série de livros Língua Vernácula, Gramática e Antologia, além de diversos livros sobre ortografia, assunto em que foi, sem favor, a primeira das nossas autoridades.
Ninguém o superou na estupenda capacidade de trabalho. Nulla dies sine linea, dizia ele ser o seu lema e assim jamais deixou passar dia sem escrever uma linha ou tecer uma frase.
Discípulo dileto de Carneiro Ribeiro e admirador, sem restrições, de Rui Barbosa, cujas obras anotou minuciosamente, sabendo-as de memória em grande parte, Sá Nunes foi o reflexo fiel e continuador insigne da vocação filológica e literária daquelas duas gigantescas organizações mentais que a Bahia nos legou.
Em 1939, o Governo de São Paulo houve por bem contratá-lo para reger a cadeira de Filologia Portuguesa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade daquele Estado, honroso convite a que aquiesceu, após haver sido convidado pelo Ministério das Relações Exteriores para, juntamente, com Ramiz Galvão, José Oiticica, Raggio Nóbrega, Antenor Nascentes, e Laudelino Freire, representar o Brasil no Quarto Congresso Internacional de Linguistas na Universidade de Copenhague. Depois de prelecionar por algum tempo na Universidade de São Paulo, transferiu-se para o Rio, onde, com Cláudio de Sousa e outros, organizou o P.E.N. Clube do Brasil e dedicou-se assiduamente à colaboração na imprensa, sobressaindo-se, no quadro de colaboradores do Correio da Manhã.
0 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística contratou-o então para uma função técnica e valeu-se da sua reconhecida competência para a feitura do maior vocabulário de Topónimos de que dispomos. A Academia Brasileira de Letras chamou-o para colaborar nos trabalhos do acordo ortográfico firmado com a Academia das Ciências de Lisboa, à vista das suas múltiplas publicações e estudos em matéria de ortografia, e incumbiu-o de ir a Portugal, juntamente com a comissão presidida pelo Prof. Pedro Calmon, a fim de fixar as bases de um convênio. Em 1945, reuniu-se na capital lusitana a Conferência Interacadêmica para tratar do assunto.
A representação que, a 10 de agosto de 1945, firmou o acordo, constituiu-se de Júlio Dantas, Gustavo Cordeiro Ramos, José Maria Queirós Veloso, Francisco da Luz Rebelo Gonçalves e Luís da Cunha Gonçalves, pela Academia das Ciências de Lisboa; Pedro Calmon, Ribeiro Couto, Olegário Mariano e José de Sá Nunes, pela Academia Brasileira de Letras.
Em dezembro do mesmo ano, o Presidente da República aprovou o Acordo para unidade ortográfica da língua portuguesa e incumbiu a Academia Brasileira de elaborar um Vocabulário Ortográfico Resumido, tarefa confiada principalmente a Sá Nunes e concluída a 10 de dezembro de 1946, sob o título de Vocabulário Ortográfico Resumido da Língua Portuguesa.
Por ocasião dessa representação no país irmão, o eminente patrício recebeu, além de outras dignidades, a insígnia de Comendador. Outro serviço relevante que a Nação lhe ficou a dever foi o redigir a Constituição Federal de 1946, sem remuneração alguma.
À medida que marchavam os trabalhos parlamentares de elaboração do texto de nossa Magna Carta, iam sendo os originais encaminhados à revisão de Sá Nunes, que lhes dava a forma definitiva. Foi intermediário disso o então senador Nereu Ramos.
Após essa fase de sua vida, multiplicaram-se as promessas de cargo público à altura do seu merecimento, mas nunca se concretizaram. O Paraná, que muito lhe ficou a dever, fechou-lhe por fim as possibilidades de reingresso no magistério, quando ele pretendeu retornar através da reintegração a que tinha direito. O nome do Prof. José de Sá Nunes, contudo, ficou sendo motivo de orgulho das gerações que aproveitaram as luzes da sua inteligência e da sua fecunda sabedoria, porque ele passou para a imortalidade como legítimo padrão de glória da cultura nacional.